O claro e o explicito
O claro e o explícito
.”É casado, tem filhos” Ouvi essa frase diversas vezes pronunciada por um locutor no programa eleitoral de Marta Suplicy (ou Favre) candidata do PT à prefeitura de São Paulo. O que ela significa? Aparentemente seu sentido está claro, evidente. Ela diz que desconhece a vida pessoal de Gilberto Kassab e que o eleitor precisa se informar melhor, Marta é uma mulher, descasada e casada novamente, mãe de dois filhos. entretanto essa frase enunciada no contexto de uma eleição de forma tão insistente, não pode ser entendida na simplicidade semântica de seus termos. O que significava então a frase recorrente da candidata? Qual o sentido de insinuar essas condições como "diferenciais em uma campanha?
Ao afirmar subliminarmente que é "mãe" e que, portanto é "mulher" a candidata Marta estava conectando o conceito da maternidade ao conceito de gênero e marcando um ponto de diferença, uma particularidade de sua condição que destoava daquele que concorria contra ela à prefeitura de São Paulo. Era como se ela estivesse querendo "demonstrar" (se é que isso é passível de qualquer tipo de prova ou de demonstração) sua condição sexual a partir de sua maternidade.
Não é preciso ser nenhum gênio da publicidade para saber que a frase repetida à exaustão pela campanha da candidata do PT tinha um endereço certo. Seu objetivo político era muito claro e seus efeitos foram sentidos em diversos segmentos da cidade. Essa frase reforçava, na boca do povo de São Paulo, o preconceito em relação a sexualidade de Gilberto Kassab.Como se a maternidade de Marta fosse a prova da sua condição sexual, e a não paternidade de Kassab colocava em questão a sexualidade do candidato do DEM. Esse era o discurso subliminar da misteriosa frase repetida nos programas eleitorais de modo aparentemente despretensioso.
Eu particularmente, quando voto, não estou nem um pouco interessado em saber como o meu candidato pratica a sua sexualidade. Se ele é hetero, homo, bi, poli ou pan sexual (excluindo a pedofilia ou o estupro, para mim não há delito em fazer ou deixar de fazer sexo com quem ou o quê você quiser. Cada um que cuide da sua vida e faça com ela o que achar melhor). Nunca me interessou saber o que meu candidato fazia na cama até porque eu concordo com Nelson Rodrigues, o mago da crônica jornalista brasileira, produtor de algumas das frases mais geniais que eu já tive oportunidade de ler: "Se nós soubéssemos da intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria na rua". No entanto, essa minha despreocupação não pareceu ser a regra entre os meus conterrâneos nessa eleição.
Entre o normal e o natural, entre o convencional e o proibido, entre a tolerância e o preconceito, algo deixou de ser dito nessa campanha. Provavelmente na história política do Brasil muitos governadores, prefeitos, deputados e senadores tiveram que esconder suas preferências sexuais para poder passar no teste do preconceito popular. Imagino que muita gente casou, teve filhos, cumpriu todos os ritos matrimoniais e sociais exigidos pela tradicional família católica brasileira (conservadora) para que, diante do seu eleitor e da sua eleitora, não sobrasse nenhuma dúvida de que suas práticas sexuais corriam em pura conformidade com aquilo que o entendimento padrão considera "normal". Muita gente mutilou o próprio desejo, rasgou a própria vontade e escondeu a própria alma para tolher algum suposto "desvio", alguma pulsão, algum trejeito que pudesse "denunciar" sua condição.
Na política brasileira é absolutamente perdoado o dissimulado. Aquele que se esconde é aceito. Mas, entre o dissimulado e o assumido há o explícito. Nem tudo que é explicito, ou aparentemente evidente é claro. Provavelmente a provocação que a campanha de Marta lançou contra a de Kassab poderia ter gerado um fato histórico na política do Estado de São Paulo. No silêncio de um e na insinuação da outra se perdeu a opção pela clareza. Entre aquilo que é explícito e aquilo que é insinuado, perdeu-se a chance de pôr as cartas na mesa e discutir, sem rodeios nem dissimulações uma questão central de nosso tempo e de nossa cultura: o que significa ser homossexual? Qual o peso da opção sexual de um candidato em uma eleição? Até quando as pessoas serão divididas, menosprezadas, ridicularizadas e classificadas em função da sua religião, da sua raça, da sua cor, condição social ou do tipo de afeto que elas cultivam? Faltou o entendimento central presente no brasão nacional indiano, e que eu gosto de repetir para mim mesmo a exaustão: só a verdade vence.

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